Pólítica com tempero: o blog de curiosidades gastronômicas sobre acontecimentos sociais, políticos e culturais

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Quantos minutos você trabalha para comprar um Big Mac?


Há alguns anos, a revista The Economist publica um ranking que mede o poder de compra de determinadas moedas baseando-se em um item simples: o custo do Big Mac em cada país. A ideia é bastante válida, uma vez que o lanche carro-chefe do McDonald`s é um dos produtos mais "iguais" em todos os lugares do mundo.

Recentemente, a revista publicou outro índice alternativo, ainda considerando o sanduíche do Ronald. O novo ranking mede quanto tempo uma pessoa tem que trabalhar em 73 cidades do mundo para ter dinheiro para adquirir o lanche. Dessa forma, pode-se verificar não só a valorização da moeda em si, mas ter uma ideia do custo de vida e da capacidade de consumo da população.

A cidade de Obama, juntamente com Toronto e Tóquio são os lugares do mundo onde o trabalhador fica menos tempo na labuta para saborear o sanduíche: apenas 12 minutos. Para contrastar, em locais como Jacarta, Nairobi e Cidade do México, o tempo médio são duas horas. A representante brasileira da lista é São Paulo, onde um habitante precisa trabalhar em média 40 minutos, pouco menos que a média global.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cuba Libre!

Ao ler o rótulo de uma garrafa de Bacardi, provavelmente estará escrito: engarrafado em Porto Rico.

Entretando, o rum está para Cuba assim como a cachaça está para o Brasil. A principal semelhança é que os dois produtos são fabricados por meio da destilação da cana-de-açúcar. O mojito é a caipirinha cubana. A Família Bacardi era uma das mais tradicionais da ilha.

A primeira fábrica deles foi fundada em 1862, em Santiago de Cuba, por Don Facundo Bacardi Masso.

Desde então, a história da família Bacardi mistura-se com a da ilha. O filho mais velho de Facundo, Emilio Bacardi, foi exilado do país por promover atividades anticoloniais. O neto do fundador da Bacardi lutou no exército rebelde da independência.

Foi inclusive depois da guerra da independência que a família criou um drinque bastante temático: o Cuba Libre. No início do século XX, durante a Lei Seca norte-americana, a Bacardi se tornou ponto de visitação dos turistas dos Estados Unidos.

Na década de 1930, algumas garrafas de rum Bacardi foram produzidas fora de Cuba pela primeira vez, nas fábricas de Porto Rico e do México.

Mas o sonho acabou em 1959, com a revolução e o comunismo. A família Bacardi deixou o país abandonando todas as plantações de cana, confiscadas pelo estado durante o processo de reforma agrária. Os ilustres cubanos se mudaram para as Bahamas e passaram a passaram a maioria das operações para a fábrica de Porto Rico: aí está a explicação contida nas garrafas.

Até hoje a Bacardi Rum Co. procura recuperar suas propriedades de açúcar expropriadas pelo governo revolucionário e é uma das maiores opositoras ao regime castrista.

Hoje, o estado de Fidel produz o Havana Club: El Ron de Cuba... É um rum de exportação, produzido no bairro de Habana Vieja, na capital (foto).

domingo, 20 de setembro de 2009

Embalagens de produto

Se a minha família se mudasse para Cuba hoje, só a minha mãe teria alguma possibilidade de conseguir um emprego. Tem formação em serviço social, um dos pontos altos do país.

Cansei de ouvir que ser jornalista em Cuba é muito perigoso. Em outras palavras, não há liberdade de imprensa. Ou seja, eu teria que suar a camisa para publicar qualquer reportagem.

Mas quem, com toda certeza, ficaria desempregado é meu irmão: publicitário.

Essa é a profissão mais irrelevante em um país comunista. Os motivos são fáceis de serem observados. Se não há concorrência, nem poder de consumo, nem liberdade de compra: para quê pagar um profissional cujo objetivo principal é alavancar vendas?

O supermercado é o local de Cuba onde essa total irrelevância fica completamente evidente. Com certeza, não existem empresas de trade marketing na ilha. Não há gôndolas centrais, nem displays, nem banners. Trabalho de PDV? Com qual finalidade?
Existe uma pequena gama de produtos dispostos milimetricamente nas prateleiras e há diversos seguranças espalhados pelos corredores, monitorando os passos de todos os frequentadores. As embalagens de produtos cubanos são praticamente iguais: possuem apenas as informações essenciais no rótulo. Não há licenciados, nem logos, nem identidade de marca...

A mesmice é quebrada pelos importados: há itens brasileiros, franceses, espanhóis, argentinos, venezuelanos. Marcas como Nestle, Bauducco e, pasmem, as maravilhosas sandálias Dupé (foto). Ou alguém aí achou que eram Havaianas?
Havaianas é coisa para europeu!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Tão perto, tão longe: fim da URSS e exploração turística


No balneário cubano de Varadero, a menos de 200 km de Havana, tem-se uma vista maravilhosa para o mar do Caribe. Azul, cristalino, calmo e paradisíaco. Lugar ideal para atrair pessoas do mundo inteiro.

Um potencial comercialmente inexplorado até o início da década de noventa, quando o turismo passou a ser um dos maiores produtos de exportação cubanos. Esse processo não aconteceu por vontade do governo, mas por necessidade. Essa pequena abertura de mercado se deu pouco tempo depois da derrocada da URSS e da queda do muro de Berlim. Quando perdeu seus maiores parceiros comerciais, Fidel teve que se virar e aproveitou o que a ilha poderia oferecer de melhor.

O primeiro resort, Sol Meliá Palmeras, foi construído em 1990 e inaugurado pelo próprio Fidel Castro. A foto do ditador, a história do local e o hino revolucionário de Cuba estão na porta do empreendimento, que é uma sociedade entre os espanhóis da rede Meliá e o governo de Cuba. De lá para cá, aproximadamente um resort é inaugurado ao ano na cidade.

Hoje, são 18.

A renda que entra da exploração turística tornou possível algumas pequenas modernizações na infraestrutura do país caribenho: compra de novos ônibus, pavimentação de rodovias, presença de carros europeus 0km para aluguel.
A maioria dos cubanos deseja trabalha na rede hoteleira, onde ficam mais próximos desse mundo moderno. Dentro dos resorts, é possível se esquecer de que estamos em Cuba, das pobrezas do país e de todas as mazelas pelas quais passam a população. É quase como visitar a Disney.

A comida também.

Dentro dos resorts, existe um mundo mágico de aromas e sabores. São restaurantes dos mais diversos tipos de culinária mundial: italiana, alemã, espanhola, chinesa e, é claro, caribenha. Há opções para todos os tipos de paladares. A maioria dos vinhos vem da Espanha, mas é o rum cubano que cai nas graças dos turistas.
Uma breve visita ao centro de Varadero traz a realidade regional: os cubanos comem em carrinhos de lanches e pizzas (foto), sem guardanapo, pois o papel é escasso e o mais curioso é que, por motivos óbvios, as travessas são retornáveis. Como tudo na ilha de Fidel, os utensílios têm décadas de existência.
PS: Lembrando que os norte-americanos não podem visitar Cuba

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Muro de Berlim de sorvetes

Final de tarde quente de Havana. Faz 32 graus. Acredite, a sensação térmica é de muito mais. Em uma caminhada rápida pelo bairro de Plaza de La Revolucion, é possível observar uma movimentação estranha de cubanos. Em grupos, grandes ou pequenos, todos caminham para o mesmo lugar: a praça central.

Nela, está localizada a sorveteria Coppelia, inaugurada no dia 4 de junho de 1966. Após os primeiros anos da revolução, as três principais marcas de sorvete – Guarina, Hatuey eSan Bernardo –haviam desaparecido. A inauguração da Coppelia foi motivo de festa. 43 anos depois, os cubanos ainda se deslocam de todos os lugares de Havana, ou até mesmo de outras províncias, para se refrescar com um sorvete. Em plena segunda-feira, as filas são longas e é preciso resistir à espera.

Aos finais de semana, o local recebe mais visitantes do que o permitido pelo espaço físico. E olha que a sorveteria ocupa grande parte do o centro da praça, além de ter quatro salas com mesas no andar de cima. Há militares por toda a parte. Também há correntes cercando as filas e o entorno da praça. O acesso ao local onde os sorvetes são vendidos é restrito.

O mais curioso é que, enquanto os moradores da ilha se aglomeram nas filas, os turistas podem comprar o mesmo sorvete em uma barraquinha ao lado. O que separa os dois produtos? A resposta é simples: os vendidos aos turistas custam 70 vezes mais.
Não, você não leu errado. O mesmo sorvete que custa 1,10 peso cubano para eles, sai por 2,80 CUC para nós. Como cada CUC vale 25 pesos cubanos, é só fazer as contas. Um turista paga 6,2 reais por um sorvete de massa de uma bola e pode escolher entre três maravilhosos sabores: morango, amêndoas e laranja.

Lembrando que esse não é o único sorvete de Cuba. Existem diversas marcas conhecidas nossas no país, como a Nestle. Mas acho que ficou bem claro por que todos os locais preferem a Coppelia, não é mesmo? E não tem nada a ver com variedade de produtos, ambiente, propaganda, estratégia de marketing, qualidade...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Como comem os turistas, como comem os locais

Para entender Cuba, é preciso saber que o país vive a dualidade da existência de dois ambientes que circulam paralelamente dentro do mesmo. Esses universos se diferenciam por um ponto principal: o dinheiro. São duas faces da mesma moeda.

De um lado, está o peso cubano, aquele que possui os heróis da revolução estampados. A cédula de três pesos, por exemplo, carrega a famosa foto de Che Guevara "hasta la victoria siempre", a mesma usada nas camisetas na Praça da República, centro dos revolucionários e bichos-grilo paulistanos. Do outro lado, está o peso convertible (CUC), cuja identidade gráfica "imita" a do euro.

A realidade do câmbio: cada CUC vale 1,26 euros, ou 0,80 dólares ou 25 pesos cubanos. Um habitante da ilha ganha, em média, 210 pesos cubanos por mês, ou seja, menos de nove pesos "dos turistas".

A moeda dos revolucionários lidera uma realidade barata dentro país, mas com pouco poder de compra de produtos industrializados ou importados. Quem ganha em peso cubano só tem acesso ao que é produzido em Cuba (ou o que é subsidiado por nações "irmãs"): basicamente comida não-industrializada (leia-se commodities), roupas em linha de montagem, produtos baratos, simples e de pouca tecnologia.

Para quem tem acesso aos CUC (apenas turistas ou profissionais que recebem gorjetas na hotelaria), há uma ampla gama de alimentos importados da Europa e América Latina. É possível achar, até, Coca-cola, além de produtos de marcas conhecdas pelos brasileiros, como Bauducco. Entretanto, uma torrada que custe 1 CUC representa mais de 10% do que a maioria dos cubanos ganha mensalmente. Deu para sentir o drama?

Um cubano dificilmente conseguirá experimentar comidas como as nossas: chocolates gostosos, biscoitos recheados, pratos congelados, pizza semipronta... Em tempos de obesidade latente, seria um problema ou uma sorte?

E o Obama segue com o embargo por mais um ano!

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Na foto: Plaza de la Revolución

Cuba, economia, política e comida



Durante todo este mês, política com tempero traz uma série exclusiva de artigos sobre a terra dos irmãos Castro. Falaremos sobre comidas cubanas, moedas cubanas, sorvetes cubanos, restaurantes cubanos, bodegas cubanas, rum cubano e povo cubano.

Enfim, tudo sobre a simpática e complicada ilha.

Para começar, uma explicação sobre como funcionam as duas moedas locais. Sem essa compreensão, fica impossível entender as dualidades da exótica culinária de Cuba.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Eles bebem, elas comem

Best Seller, o livro Comer, Rezar, Amar, da autora norte-americana Elizabeth Gilbert, causou identificação em mulheres de trinta países. A história de uma balzaquiana tentando se encontrar após uma dolorosa separação vendeu mais de quatro milhões de exemplares.

Agora, surge uma versão divertida voltada para eles: Beber, Jogar, F@#er, do escritor humorístico Andrew Gottlieb. Parodiando o livro de Gilbert, o autor traça paralelos entre os gêneros

Enquanto a publicação dela é autobiográfica, a dele conta a história fictícia de Bob Sullivan. Em ambos, os personagens querem se livrar da dor conhecendo novos lugares.

Ele faz sexo na Tailândia, ela faz amor na Indonésia. Ele joga em Las Vegas, ela reza
na Índia. E, é claro, ele bebe na Irlanda, ela come na Itália.

Nada mais emblemático para pensarmos as disputas de gênero da sociedade do que o fato de que as mulheres comem enquanto os homens bebem. Em outras palavras: enquanto nós engordamos, eles se divertem.

domingo, 26 de julho de 2009

Culinária fusion e revolução do cérebro!


Uma coisa é certa sobre os modismos: eles existem com cada vez mais força e fica difícil não tocar no assunto. Quando o tema é gastronomia – como é o caso deste blog – é obrigatório falar de culinária fusion, a bola da vez. Na verdade, não é de hoje que ela existe, mas foi em 2008 que se difundiu em muitos dos principais restaurantes do País.

Como minha missão é misturar tendências culinárias e políticas, digo com propriedade: esse tipo de gastronomia é resultado de uma nova ordem mundial. Em um mundo onde as distâncias se encurtam cada vez mais e a criatividade é diferencial, misturar sabores e experimentar novas maneiras de fazer torna-se essencial para a sobrevivência de quase todos os chefs (ou pelo menos daqueles que desejam ganhar estrelas Michelin ou, até mesmo, no Guia da Folha).

Dizem que Alex Atala (foto) foi pioneiro em temperar tradições internacionais com toques de brasilidade. Fica difícil saber ao certo se foi ele, mas uma coisa não se pode negar: o chef-sensação foi o primeiro a fazer alarde sobre o assunto. Considerando que algo só existe realmente quando as pessoas conhecem, Atala faz jus ao rótulo de precursor.

No livro “A revolução do lado direito do cérebro”, o autor norte-americano Daniel Pink aplica conceitos que têm tudo a ver com essas tendências: já não vale mais fazer bem, é preciso fazer diferente. O lado esquerdo do cérebro, sistemático e lógico, é útil, mas não suficiente. Para conseguir atingir um diferencial nos dias atuais, é preciso usar o lado esquerdo: criativo, histórico, lúdico, empático e sinfônico.

A gastronomia é apenas uma forma de representação desse novo mundo.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O almoço do brasileiro (parte III): O retorno dos excluídos

O maior problema do Brasil é a desigualdade social. Qualquer pessoa com o mínimo de senso de observação – indo do ex-presidente ao atual – consegue perceber que há poucos extremamente ricos, até para padrões europeus e norte-americanos, e muitos extremamente pobres.

Em uma cidade como São Paulo, a mais abastada do País e com duas lojas Tiffany’s, fica ainda mais fácil observar isso. O horário do almoço torna-se momento emblemático. Os restaurantes dos Jardins – onde existem todos os tipos de refeições caras –ficam abarrotados. São pessoas fechando negócios, fazendo networking ou apenas se refestelando para dar uma pausa na rotina estressante.

Enquanto isso, lá dentro, os colaboradores comem o que dá. Além disso, pessoas que trabalham em bairros muito chiques ou em grandes centros comerciais, porém com cargos menores, precisam se virar para não gastar o salário inteiro comendo PFs de 30 reais. O jeito é vender tickets refeição e levar o almoço pronto de casa.

Mesmo com essa solução, acontecem dois problemas básicos: os tickets agora são de cartão e o valor da cesta básica não para de crescer.

Explicando: quando os tickets ainda eram de papel, era fácil repassá-los. Hoje, é preciso encontrar um restaurante que se disponha a descarregar o valor, descontando o preço cobrado pelas operadoras e juros módicos. Afinal, ninguém faz nada de graça. Além disso, a alimentação é um dos itens que mais aumentaram de preço segundo o IPC-Fipe (Índice de Preços ao Consumidor): 0,19% em maio.

Tem que ser malabarista para equilibrar o orçamento!
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Na foto, Fasano, restaurante símbolo da desigualdade.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Deus é amor... e comida

“A religião é o ópio do povo”. Certas frases são inesquecíveis e atemporais e essa – atribuída a Karl Marx – é uma delas. Em uma espécie de pesquisa antropológica, no mês passado, visitei o templo “mundial” da Igreja Pentecostal Deus é Amor (IPDA). Foi uma experiência única, que indico a qualquer pessoa que queira entender melhor o mundo.

Gigante, o templo localiza-se na Avenida do Estado em São Paulo. Recebe, aos domingos, fiéis do Brasil inteiro e, até mesmo, do exterior. Durante horas, é possível ouvir missionários pedindo dinheiro ou, como eles preferem chamar, dízimo. O ponto-alto do culto é a chegada de David Miranda, fundador dessa vertente evangélica.

Já idoso, ele aparece em uma cúpula localizada no centro do palco. Dizem que os vidros são blindados, pois o missionário recebeu inúmeras ameaças de assassinato. Se é tudo estratégia de marketing ou verdade, nunca vamos saber.

Durante a cerimônia, fiéis que consideram ter alguma coisa para contar sobem ao palco. Então, começam as sessões de milagres, quando cada uma dessas pessoas conta por que motivo considera que se salvou, as mudanças que teve na vida depois de começar a freqüentar o tempo.

Na primeira fileira do auditório, posicionam-se as pessoas com problemas de saúde (algum tipo de deficiência física ou, até mesmo, em camas posicionadas na frente do palco). O momento mais triste é quando o missionário resolve curá-las: alguns cadeirantes levantam-se e o milagre acontece, deixando a plateia em polvorosa.

Paralelamente ao culto, existe lá fora um verdadeiro mercado da fé, uma atração à parte, mas que, certamente, torna o programa dominical ainda mais atrativo às famílias que frequentam o templo. Todo tipo de comércio: roupas, bíblias, CDs, DVD e... comida, muita comida. Tudo feito sem procedência, com higiene duvidosa, mas todos os quitutes são apreciados pelos fiéis.

Certamente, todos retornam para casa com a certeza de ter vivido um dia especial, recebido alento espiritual e comido com qualidade. Um tema para reflexão.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Mais fiscalização, menos pipoca

Um pipoqueiro com “ponto” em frente à PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) teve o seu carrinho de pipocas apreendido por fiscais municipais. No mesmo dia, um café nos Jardins teve as mesas e cadeiras da calçada apreendidas. Na PUC, provando que ainda existe consciência política entre os universitários, houve uma comoção geral. No café, o dono levava às mãos à cabeça pensando no provável prejuízo.

Essas duas cenas vivenciadas na semana passada são decorrência de ações adotadas pelo prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM). O líder executivo da maior cidade do País resolveu fiscalizar a presença de mesas e cadeiras nas calçadas da cidade. Também foram tirados das ruas os ambulantes.

Todos querem uma São Paulo mais limpa e organizada, disso ninguém duvida. Mas toda cidade tem identidade. Muitas vezes, pode ser aliada a certa irregularidade e caos. Imagine se a lei Cidade Limpa passasse pela Times Square? O ponto turístico de maior relevância de Nova Iorque perderia completamente a estética e o charme que atraem pessoas do mundo inteiro.

A mesma coisa acontece, por exemplo, na Vila Madalena, onde o ato de tomar uma cerveja ao ar livre dá brilho ao bairro boêmio. Da mesma forma, a Rua Oscar Freire é um centro de compras conhecido internacionalmente e ganha glamour por seus bancos e mesinhas, onde é possível comer quitutes e beber um bom café observando o movimento de sacolas. Os exemplos são infindáveis.

Na PUC, os estudantes, acostumados a comer sua pipoquinha durante o intervalo das aulas, quase lincharam o carro dos fiscais da prefeitura. Foram necessárias intervenções dos seguranças da instituição para conter a fúria. Resultado: um pipoqueiro sem emprego.

E a pergunta é: o que São Paulo realmente ganha com isso?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Gastronomia, cultura e globalização

A globalização da cultura realmente existe: hoje tive ainda mais certeza. Estava apurando uma pauta sobre o Recife, levando em conta os principais pontos turísticos da cidade. Nesse pacote, não podia faltar gastronomia, o meu tema preferido.

Pedi para o assessor de imprensa da prefeitura da cidade me passar algumas dicas legais e que fugissem um pouco dos roteiros convencionais turísticos. A resposta obtida foi a seguinte:

"Como você pede coisas que não estão nos roteiros tradicionais, gostaria de citar o Bar Central (foto), no centro da cidade, que é pilotado pelo judeu André Rolemberg e serve pratos judaicos e árabes. Além de ser ponto de encontro de artistas do Recife (algumas vezes gente conhecida do cinema, como Dira Paes e Mateus Nachtergaele), o local tem boa música, com destaque para bossa nova cantada em hebraico."

Achei o máximo! O que Tom e Vinícius pensariam disso. Nem imagino!

Lembrei um pouco da época em que morei em Washington, DC, nos EUA. Certa vez, indicaram-me um bar chamado Bossa, que - como o próprio nome já diz - tem música brasileira. Localiza-se no charmoso bairro da Adams Morgan, uma espécie de Vila Madalena da cidade. Quando cheguei, avistei um negro tocando Djavan, com uma linda voz e um português perfeito (impossível para um norte-americano), mas o sotaque era bem estranho.

Perguntei duvidando: “ele é brasileiro?”
A resposta foi: "não, é de Cabo Verde".

Legítima música brasileira, cantada nos Estados Unidos por um negro de Cabo Verde. Milton Santos iria se chocar.

Por falar nisso, esse bar tinha pasteizinhos e uma caipirinha deliciosos.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O corte de carne da moda

Tudo tem moda. Existe o cabelo da moda, a gíria de moda, a roupa da moda, a comida da moda... Agora, o máximo é ter corte de carne da moda! É claro que a ideia tinha que vir de uma churrascaria de ponta: a Vento Haragano.

Conhecida por estar entre os melhores da capital paulista, o estabelecimento agora tem a Costela Premium. O release diz: "É um corte tradicional dos gaúchos, que a chamam de ripa da chuleta. Corresponde à bisteca do contrafilé".

Em outras palavras: rico pode chamar contrafilé de costela premium. Isso é chique! Isso é luxo!

domingo, 31 de maio de 2009

O almoço do brasileiro – Parte II: A humilhação contra-ataca

A partir de hoje, nunca mais reclamarei da porta giratória da instituição bancária que frequento. Nem preciso dizer que, como toda mulher, sou sempre barrada no detector de metais e tenho que tirar uma infinidade de bugigangas da bolsa para conseguir adentrar o local.

Mas neste dia chuvoso, lembrei que tinha de ir ao banco justamente no pior horário: o almoço. Exatamente naquela uma hora em que as pessoas teoricamente teriam de estar se dedicando a encher a barriga, e os corações, com pratos típicos da gastronomia brasileira, todos estavam ali se amontoando na enorme fila para resolver pendências.

Sortuda que sou, precisava apenas falar com a gerente da minha conta. Para minha surpresa, a porta não tinha detector de metais e passei tranquilamente por ela. Sentei na poltrona para esperar ser atendida e, quando olho para a porta, vejo dois rapazes serem barrados pelo segurança.

Ambos eram afrodescendentes, estavam com o uniforme da maior companhia de manutenção de elevadores do País e, por conta do trabalho, os trajes tinham graxa por todos os lados. A cena me causou certa revolta. Fiquei pensando em como o trabalhador brasileiro tem que aguentar uma rotina estressante em uma cidade como São Paulo e ainda ser discriminado na entrada do banco.

Para piorar, eles sentaram ao meu lado e estabeleceram o seguinte diálogo:
- Quanto tempo esse pessoal de banco vai levar para entender que quem quer roubar não passa pela porta? – perguntou o primeiro.
- Se o cara quer entrar pra roubar, vem vestido de executivo, arrumadinho, com terno – constatou o segundo
- Ainda dá tchau para a câmera – apostou o primeiro

Com o estômago roncando, o primeiro perguntou?
- Será que a gerente vai demorar muito? Eu estou com uma fome.
- Saindo daqui, almoçamos um cheesesalada aí na frente.
Por Vivian Peres

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O almoço do brasileiro (parte I): A jornada se reduz

Sempre me perguntei como é possível desenvolver uma boa alimentação diária tendo que sair do trabalho, entrar na fila do restaurante, servir-se, almoçar, pedir a sobremesa, pagar a conta e estar a postos para a jornada vespertina em apenas uma hora.

Há alguns anos, o intervalo de almoço era o dobro desse tempo e alguns felizardos podiam ainda voltar para casa, assistir a um pedacinho do jornal e fazer a sesta – que por sinal aumenta a qualidade do desempenho laboral e faz bem ao coração, à mente e ao corpo.

              

Em uma cidade como São Paulo, os próprios colaboradores optam por reduzir o intervalo de realização da principal refeição do dia. Uma análise simples pode levar a dois motivos aparente: passe-se mais tempo no trânsito, sendo preciso reduzi-lo em outras áreas, e, como sempre, a influência do modelo de gestão norte-americano.

Cada vez mais e mais, as escolas de negócios seguem a cartilha do Tio Sam, ensinando o modelo de business ditado pelos nossos vizinhos, no qual a regra básica é: menos é mais. Ou seja, menos almoço é mais trabalho. Com hábitos alimentares alijados por todo o mundo e reconhecidamente pouco saudáveis, o norte-americano típico nem sai do escritório para comer, prefere fazer isso na própria mesa.

Não é coincidência que almoço, em inglês, é lunch. Ou seria lanche? Na cultura deles, a fome é perfeitamente saciada com um sanduíche de pasta de amendoim com geleia. Felizmente, na nossa, um belo prato de arroz com feijão ainda é muito valorizado, porém, um dia, pode deixar de ser.

Mas pior do que ter de enfrentar a fila do restaurante, é ter de gastar a sagrada hora do almoço para resolver pendências burocráticas e depois ainda ter de se contentar em comer um misto-quente.

A parte II desta trilogia traz uma descrição reveladora de como pode ser triste o momento em que um brasileiro típico deveria estar almoçando.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Milionários sem casa


Como um filme pode arrecadar U$S 262 milhões e parte de seu elenco continuar vivendo em situação de extrema pobreza, sem casa e com pouquíssima comida? Esse é o retrato da situação em que vivem os atores mirins de “Quem quer ser um milionário?”, película que arrematou nada menos do que oito estatuetas do Oscar.

Após o sucesso, nada mudou na vida dos atores Rubina Ali e Azharuddin Ismail M. Shaikh, que interpretaram respectivamente os personagens Latika e Salim crianças. Além de continuarem vivendo em uma favela de Mumbai – o slum, que deu nome ao título original Slumdog Milionaire –, perderam as casas graças a uma demolição oficial, que incluiu as habitações em estado precário.

Em meio a galinhas que podem virar jantar e esgoto a céu aberto, sem higiene, nem saneamento, vivem amontoados em habitações pequenas, sobrevivendo da ajuda de familiares. O produtores do longa explicam que foi dado um alto cachê às crianças, porém, devido às leis indianas, o dinheiro só poderá ser usado quando elas completarem a maioridade.

Pode parecer um pensamento simplista, mas a pergunta é: não há nenhuma brecha na lei, como, por exemplo, fazer uma doação espontânea em dinheiro à família dos atores? Com certeza, nenhuma lei impede os produtores de conseguirem empregos bem remunerados para os pais dos pequenos, o que poderia ser outra solução.

O filme, que eu considerava um dos roteiros mais bem amarrado dos últimos tempos e uma das premiações mais inteligentes da academia, perde fãs. Mostra que a crítica artística é importante para a reflexão e deve ser feita, sempre. Mas só há significado real e profundo quando existe coerência entre discurso e ação.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Neurose do porco

Há algum tempo, entrevistei o médico psiquiatra Isaac Efraim. Especialista em fobias e distúrbios ligados à ansiedade e ao medo, explicou algo que hoje parece até um tanto quanto óbvio: o medo é uma ansiedade extrema. A ex-gripe suína, que agora é chamada de Gripe A (H1N1), é uma prova latente de que o descontrole emocional contemporâneo causa pânico generalizado.

Por exemplo: apesar de já estar claro que a gripe não é tão perigosa e da Organização Mundial de Saúde (OMS) confirmar que o consumo de carne cozida não transmite o vírus, os suínos já registram quedas nas vendas globais.

O frigorífico JBS-Friboi, gigante do setor presente em 18 países, comenta que China, Rússia, Coreia do Sul, Indonésia e Tailândia embargaram os produtos originários dos Estados Unidos e do México. No Brasil, mesmo com poucos casos confirmados, em alguns estados, como Goiás, as quedas nas vendas desse alimento chegam a 60%, de acordo com dados do Sindicato Varejista de Carne Fresca (Sindiaçougue).

Tudo isso aponta ansiedade endêmica causando verdadeira globalização da hipocondria: pessoas comprando remédios preventivos, máscaras por toda parte, produtos portáteis de higienização, etc.

Mas um fato chama ainda mais a atenção para a loucura geral: nos Estados Unidos, estão sendo organizadas festas para contrair a doença.

Pode parecer um contrassenso, mas a ideia de quem participa é que devem pegar a gripe agora, enquanto o vírus é “fraco”, preparando, assim, o sistema imunológico para uma possível mutação que torne a doença mais letal. Cientistas garantem que a precaução não tem “pé nem cabeça”.

As pessoas estão tentando se prevenir de algo que nem sabe se vai acontecer, contraindo um vírus poucos conhecido, que age no corpo de cada pessoa de maneira imprevisível. Entre uma bebidinha e outra no copo alheio, em meio a quitutes e hot dogs, sai uma rodada de gripe do porco.

Impossível não se lembrar da explicação de Efraim sobre o medo, pois os níveis de ansiedade mundiais estão cada vez mais intensos. Isso sim é pandemia!

PS: E o Ministro da Agricultura diz que, caso as exportações de suínos caíam, vai convidar o presidente Lula para comer porco no rolete. Tudo para provar que pode!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Obama e a gastronomia

Tudo o que Barack Obama faz vira notícia. Natural para o homem mais poderoso do mundo. Mas a imprensa norte-americana tem verdadeira obsessão pelo cardápio presidencial. Basta o presidente experimentar qualquer prato que saia do protocolo e a informação vira notícia internacional. A rede televisiva CNN noticiou no último domingo (10 de maio) duas escapulidas do líder.

A primeira foi uma tentativa de ficar a sós com a esposa Michelle. Segundo a reportagem, antes de virarem o primeiro casal da América, os Obama costumavam “namorar” pelo menos uma vez por semana. Durante os cem primeiros dias na presidência, não conseguiram manter a tradição. Resolveram, então, agendar uma noite romântica, dia 4 de maio, no badaladíssimo restaurante Citronelle, do chef Michel Richard (fotos), no charmoso bairro de Georgetown.

O local é reconhecido como o melhor estabelecimento da capital federal e ironicamente foi um dos restaurantes retratados no filme “Uma noite com o presidente”.

Ao chegarem havia mais de 200 pessoas na porta, além de 30 jornalistas. Mesmo assim, mantiveram os planos, sentaram em uma mesa reservada e pediram dois dry martinis. Ele comeu costelinhas, ela hambúrguer de lagosta. Detalhe para ser aprendido no Brasil: a conta, de 200 dólares, foi paga com cartão pessoal do presidente. Michele ainda distribuiu beijinhos ao chef.

O segundo fato noticiado exaustivamente foi a ida do presidente, juntamente com o vice Joe Biden, à lanchonete Ray's Hell Burger, um estabelecimento comum, em Arlington, na Virginia. O primeiro pediu sanduíche de cheddar e o segundo, cheeseburger. Qual é a novidade nisso?

Realmente, cada vez mais acredito que a comida tem verdadeiro poder político, unificando as pessoas e causando automática identificação dos homens públicos com a massa. Alguém duvida?

E por falar em Obama... Com a renovação da Casa Branca, Washington entrou para a mira da revista People. Famosa por noticiar fatos envolvendo celebridades, a publicação faz periodicamente o ranking das 100 pessoas mais bonitas do mundo. Neste ano, destacou beldades do novo governo. A lista inclui o secretário do tesouro Timothy Geithner, o chef de cozinha oficial Sam Kass e, é claro, a primeira-dama Michele.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Jantar chique com o dinheiro alheio

Acho que nem é preciso dizer que a verba indenizatória de R$ 2,2 milhões gasta no primeiro semestre deste ano pelos senadores nacionais inclui abusos relacionados à alimentação que vão do cafezinho do gabinete a despesas em restaurantes para “reuniões políticas”.

Afinal, como o dinheiro é liberado mediante apresentação de nota-fiscal, elas acabam vindo das mais diferentes fontes. Gastos com locomoção, alimentação, hospedagem, combustíveis e lubrificantes são os preferidos.

O líder dos tucanos na casa, senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), ainda admitiu ter dúvidas quando à utilização um tanto quanto “gastronômica” do dinheiro público, informa a organização Transparência Brasil: “Por conta da falta de regulamentação, era tudo muito vago. Eu me questionava: posso pedir o ressarcimento dos gastos em um jantar com prefeitos?”, disse o parlamentar.

O pior detalhe é que o contribuinte não possui o direito de saber quanto e onde cada senador usou especificamente a verba. Em outras palavras, eles podem levar quem quiserem ao restaurante que bem entenderem e nenhum eleitor vai ficar sabendo. Isso é Brasil!