Pólítica com tempero: o blog de curiosidades gastronômicas sobre acontecimentos sociais, políticos e culturais

terça-feira, 7 de abril de 2009

Novo conceito de hora feliz



Dia desses, uma amiga querida, com irmã na faixa dos 20 e poucos anos, contou-me uma história engraçada. Em plena sexta-feira, antes de sair para encontrar a galera no bar, viu a irmã tomando uma latinha de cerveja em frente ao computador. Rapidamente, perguntou: “Por que está aí sozinha?”. E obteve a seguinte resposta: “Estou fazendo uma happy hour com os meus amigos do MSN”.

O fato simboliza muito bem os novos ares da era da informação.

A vida virtual é, cada vez mais, uma forma imprescindível de socialização, um instrumento para formar a famosa networking. Nas aulas de marketing estratégico do MBA que curso, falamos muito menos de teorias e muito mais das formas como podemos aplicar a internet para incrementar os negócios, fazendo uso dos sites de relacionamento para conhecer pessoas.

Os mais velhos se preocupam em entrar na onda e querem se informar para não fazer feio, nem parecerem pessoas obsoletas. Os mais novos nasceram com a veia da tecnologia, aquela que ninguém tira. Outro dia, no elevador do mesmo MBA, vi uma menina ensinando à outra como usar o Twitter e as vantagens que o site oferece. No final, disse brincando: “se quiser, viro sua personal twittator tabajara”.

O interesse é tanto que o site foi capa da Época. Hoje, o The New York Times fala sobre o Facebook, focando em como ele se tornou um negócio lucrativo, mas com alguns problemas.

Será que vai chegar um dia em que todas as happy hours realmente vão ser pelo MSN, como já vislumbra a irmã da minha amiga? Espero enormemente que não, afinal, é impossível passar uma picanha no réchaud pela tela e nada substitui um bom petisco, ou o chopp gelado tirado na hora.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Chocolate para abrandar a crise


Na semana passada, li duas notícias que foram feitas para esse blog. A primeira saiu no The New York Times e contava que, cada vez mais, os norte-americanos evitam pagar a conta quando saem para comer com os amigos ou parceiros de negócios. A segunda era da Agência Reuters e dizia que, pós-crise, aumentou enormemente o consumo de doces na terra do Tio Sam.

Acho que os motivos dos dois fartos são bastante evidentes. Quem já saiu para comer nos Estados Unidos sabe o quando é caro frequentar qualquer restaurante que ofereça gastronomia de qualidade, com ingredientes frescos e selecionados. Se você não quer levar seu convidado ao McDonald’s ou ao Taco Bell's, realmente tem que investir.

Já o consumo de doces tem a ver com uma palavrinha simples: serotonina. A substância que relaxa e produz tranquilidade e alegria.
Afinal, e tempos de crise internacional, nada como um bom pedacinho de chocolate para alegrar. E que venha a Páscoa!

quinta-feira, 19 de março de 2009

Comemoração do dia!

Acabei de ler uma notícia sensacional no New York Times: A Câmara norte-americana aprovou por 328, contra 93, uma taxação de 90% sobre os bônus pagos para executivos de empresas em “salvamento”. Não tenho grande simpatia pelos EUA, mas tenho que tirar o chapéu, pois foi uma saída de mestre! Desta forma, 90% do que for pago aos executivos da AIG será devolvido aos cofres públicos. Agora, o projeto precisa da aprovação do senado, o que deve acontecer rapidamente.

Se fosse no Brasil, a votação só terminaria ao final da crise.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Cassação e fome

Pela primeira vez na história, um ditador em exercício foi punido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Seria um fato pouquíssimo questionável por qualquer defensor da democracia não fosse um pequeno detalhe: ele é líder da República do Sudão, um dos países mais pobres e conflituosos da África. Será que se fosse líder de uma nação com alguma relevância econômica internacional – como tantos outros ditadores espalhados por aí – teria recebido o mesmo tratamento?

De qualquer forma, é claro que a punição a um ditador como Omar Hassan al-Bashir, que chegou ao poder por meio de golpe de estado, merece muitas comemorações – fogos do artifício até. O presidente foi condenado por crimes de guerra, genocídio e crime contra a humanidade, graças a conflito que se estende desde 2003 na região sudanesa de Darfur.

Enquanto o TPI estuda ainda como impor a sanção ao ditador - o que é complicado em muitos pontos, podendo ferir a soberania do Sudão - a população do maior país africano continua definhando. Desde que os primeiros conflitos sudaneses começaram – há aproximadamente quatro décadas – calcula-se que 1,5 milhões de pessoas já tenham sido vitimadas, segundo estatísticas da ONU.

Deste montante, há uma parcela que morre em decorrência direta da luta armada, mas, grande parte padece de um mal que mata lenta e dolorosamente: a fome. Falta todo tipo de alimento no local. O conflito não permite que haja produção de alimento, nem que eles sejam entregues, o que torna comida fornecida pelos organismos internacionais insuficiente.

Resultado: todas as crianças têm pouco peso e a maioria delas atinge estágios irreversíveis de desnutrição. Cada dia representa uma guerra diária para fazer alguma refeição.

Apesar de todos esses problemas, é de se estranhar que o Sudão apareça tão pouco na mídia, brasileira ou mundial. Mesmo com a cassação do presidente, fato de extrema relevância para a história do TPI, houve repercussão irrisória nos grandes meios. A mídia perde, o mundo perde e, principalmente, o Sudão perde.
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PS: Com essa luz do fim do túnel, é de se esperar que outros ditadores também sejam punidos e afastados do cargo. Tomara.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Rabada com polenta: patrimônio nacional

O prato predileto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo ele mesmo, é rabada com polenta. Completamente previsível e bastante emblemático. Mesmo que Lula fosse apaixonado por Foie Gras, com Creme Burleé para sobremesa, jamais reconheceria em público e comeria em alguma sala arquisecreta da Granja do Torto. Afinal, como homem carismático com rompantes populistas que é, Lula certamente sabe que a gastronomia é um ponto que consegue unir pessoas, com a mesma força que as separa – aliás, é exatamente por isso que esse blog existe.

Já inventaram, até mesmo, um termo denominado “Comfort Food” para determinar, por exemplo, aquela sensação com a qual nos deparamos ao cheirar um tempero que remeta às raízes, à casa da mãe ou da avó, à merenda do colégio – claro que isso só acontece quando todos esses itens trazem boas lembranças. Quando um presidente brasileiro diz que, entre todas as comidas do mundo, escolhe rabada com polenta, mostra-se alinhado com as bases demográficas do País, em consonância com as origens pernambucanas e se torna, assim, um homem do povo. De bobo, não tem nem o cardápio do almoço.

Coincidência ou não, de uns tempos para cá, comer rabada é Cult. Bons restaurantes de São Paulo servem o prato e há até “bibocas” que se tornam rapidamente pontos “descolados” por oferecer boas versões a preços módicos. Além disso, não se pode negar a contribuição do chef Alex Atala, que, depois de ser reconhecido internacionalmente, ganhou passe livre para ditar tendências e mostrar a um povo que pouco valoriza as suas raízes culturais o quanto elas são ricas e especiais.

Mais que um prato, a rabada com polenta é a expressão de uma cultura, que, cada vez mais, deixa de ser marginalizada para entrar no circuito oficial.

PIMENTA: Como também não era bobo, quando presidente, Fernando Henrique Cardoso declarava que seu prato predileto era picadinho. Essa era um pouco mais difícil de acreditar.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Oligarcas maranhenses

As comidas típicas do Maranhão refletem as raízes de um dos estados brasileiros que mais se assemelha ainda a uma capitania hereditária. Misturando influências dos sertanejos, índios, portugueses e africanos, a gastronomia é muito rica. Entre os pratos procedentes da primeira origem, estão: carne-de-sol com aipim, galinha caipira, peixada e pato guisado.

Mas realmente são os escravos africanos que mais colaboraram para a formação de receitas criativas e saborosas, que agregam misturas até então inusitadas. O principal expoente é arroz-de-cuxá (foto), uma mistura de camarão fresco, camarão seco, vinagreira (verdura típica da região), arroz e temperos. As raízes que ajudaram a criar essas iguarias gastronômicas são as mesmas que até hoje mantém o estado maranhense impregnado por escravidão e sofrimento. Compõe-se assim uma população alijada, com baixa escolaridade, que acaba mantendo os mesmos comandantes oligárquicos no poder.

Em outras palavras: é um dos maiores grotões brasileiros. A família Sarney manda e desmanda como se fosse dona do estado. E de fato é. Os Sarneys possuem quatro emissoras de TV, o maior jornal impresso, 14 emissoras de rádio, uma ilha e diversas propriedades, além de governar o Maranhão há 42 anos, com políticos da família ou títeres comandados por ela.

A influência dos oligarcas no estado tem origens históricas: começaram como intermediários das aplicações de verbas da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) e, posteriormente, da Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia). O mais irônico é que essas entidades, que foram criadas para diminuir a disparidade entre os estados do Norte e Nordeste e as demais regiões do País, tornaram-se as maiores fontes de desigualdade, alimentando as elites locais com altíssimas quantias.

Depois de muitos anos de supremacia maranhense, Roseana Sarney (PMDB) perdeu a última eleição ao governo para Jackson Lago (PDT). Porém, como a família sempre dá um “jeitinho brasileiro”, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou o mandato do político eleito democraticamente pelo povo e, segundo a lei, deve nomear o segundo colocado para o cargo, ou seja, exatamente a Roseana. Os motivos da cassação são abuso do poder econômico e político, incluindo diversas denúncias que, pelo menos por enquanto, parecem um pouco vagas. É o caso, por exemplo, dos eleitores que denunciaram compras de votos espontaneamente - depois, inclusive, um deles voltou atrás e disse que tinha recebido dinheiro para testemunhar.

As consequências recaem exatamente sobre a massa afrodescendente do estado, os inventores do arroz-de-cuxá e verdadeiros chefs de cozinha para ninguém botar defeito. Enquanto as oligarquias não saírem do poder, o quadro futuro continua bem sombrio.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Glamour X realidade


No carnaval, pisei pela primeira vez em terras portenhas. Já conhecia a Argentina, devido a uma viagem para Bariloche, mas vivi a minha primeira visita a Buenos Aires. Antes de viajar, ouvi de grande número de pessoas que conheciam o local frases como: “vá para Puerto Madero, é um luxo”; “visite o shopping da Recoleta, é maravilhoso”; “a Calle Florida é uma perdição de compras”; “Palermo é puro glamour”; “ir para Buenos Aires é como respirar ares europeus”.

Antes de mais nada, quero dizer que amei a viagem, fiquei completamente encantada com a cidade e quero voltar, com certeza. Mas o que eu vi em Buenos Aires, com olhos mais críticos e menos embaçados pelas belezas do tango, foi uma cidade sulamericana com um leque tão grande de problemas que precisam de mais do que os dedos das duas mãos para serem enumerados.

Como povo consciente que são, os portenhos exibem um semblante repleto de medo e preocupação. Justo quando a economia do país começava a se recuperar após inúmeros baques, veio esta crise internacional, que tem feito a economia degringolar. Além disso, todos os cidadãos com quem conversei reclamavam da má conservação da cidade, com lixo acumulado em todas as esquinas, aumento da violência em diversos bairros, táxis caindo aos pedaços, trânsito caótico, etc.

Mesmo os restaurantes sofriam com a falta de manutenção, que influencia até na percepção de higiene. Já os famosos prédios históricos com arquitetura de estilo europeu precisam de um melhor plano de conservação e restauração. Parênteses: o famoso Teatro Colón já está sendo renovado.

O trem do metrô (subte) que leva à Plaza de Mayo é o mais antigo da América Latina e continua sendo o mesmo inaugurado em 1913. Claro que isso fornece um ar completamente especial ao local, até mesmo exótico, mas nada agradável às seis horas da tarde, quando os vagões lotam de uma maneira absurda, bem semelhante ao que acontece em São Paulo no mesmo horário. Com a diferença que, segundo denúncias públicas, o serviço portenho de metrô chega a ser perigoso de tão sucateado: faltam extintores de incêndio, mapas de evacuação e saídas de emergência.

Enfim, o fato é que, com o charme de Buenos Aires, para acalmar os ânimos depois da experiência do subte lotado, é possível tomar um sorvete Munchi de super doce de leite. Com certeza, o melhor do mundo! Certos sacrifícios valem à pena.